“Quanto eu posso receber se entrar na Justiça do Trabalho?” Essa é a pergunta número um de quem foi demitido ou sente que a empresa deixou de pagar algo. A resposta honesta é que quanto se pode receber num processo trabalhista depende do salário, do tempo de casa e, principalmente, do que a empresa deixou de pagar ao longo do contrato.
O erro mais comum é olhar só para a rescisão. O valor que vem no termo é apenas uma parte do que você pode ter direito. Milhares de trabalhadores deixam de cobrar horas extras, reflexos e benefícios da convenção coletiva por desconhecimento, e perdem dezenas de milhares de reais. Vamos montar, passo a passo, um exemplo realista para você entender como se chega ao valor total.
De que é feito o valor de um processo trabalhista?
Pense em quatro blocos que se somam:
- Verbas rescisórias: saldo de salário, aviso prévio, 13º e férias proporcionais com 1/3;
- FGTS: o saldo da conta mais a multa de 40% (art. 18, §1º, da Lei 8.036/90);
- Seguro-desemprego, quando a dispensa é sem justa causa (ou na rescisão indireta);
- Direitos sonegados durante o contrato: horas extras, intervalo, adicionais, benefícios de convenção coletiva, PLR e os reflexos de tudo isso.
O quarto bloco é o que mais pesa no resultado final e o que o trabalhador menos costuma enxergar sozinho.
Exemplo prático: trabalhador com 4 anos e meio de empresa
Vamos imaginar o João, operador de produção, com salário de R$ 2.800,00, admitido em 15/04/2022 e demitido sem justa causa em 15/10/2026. Ele fazia, em média, 20 horas extras por mês que nunca foram pagas, e a convenção coletiva da categoria previa PLR e cesta básica que a empresa não pagou no último ano. Os números abaixo são uma simulação com hipóteses, feita para você entender a lógica do cálculo.
1) Verbas rescisórias
- Saldo de salário (15 dias): R$ 2.800 ÷ 30 × 15 = R$ 1.400,00
- Aviso prévio indenizado (30 dias + 3 dias por ano completo = 42 dias, Lei 12.506/2011): R$ 2.800 ÷ 30 × 42 = R$ 3.920,00
- 13º proporcional (11/12, pois o aviso prévio integra o tempo de serviço): R$ 2.566,67
- Férias proporcionais (7/12) = R$ 1.633,33, mais 1/3 constitucional de R$ 544,44 = R$ 2.177,77
Subtotal das verbas rescisórias: R$ 10.064,44.

2) FGTS e multa de 40%
O empregador deposita 8% do salário por mês na conta do FGTS. Em 54 meses, o depósito simplificado é de R$ 224 × 54 = R$ 12.096,00. Sobre as verbas rescisórias que têm incidência (saldo, aviso e 13º), há ainda R$ 630,93 de FGTS. O saldo estimado é de R$ 12.726,93, e a multa de 40% sobre ele é de R$ 5.090,77. Na prática, o saldo real costuma ser um pouco maior por causa da correção, e o extrato da Caixa mostra o número exato.
3) Seguro-desemprego
Em 2026, a faixa que vai de R$ 2.222,18 a R$ 3.703,99 paga R$ 1.777,74 mais 50% do que passar de R$ 2.222,17. Para o João: R$ 1.777,74 + 50% × (R$ 2.800 − R$ 2.222,17) = R$ 2.066,65 por parcela. Como ele tem mais de 24 meses de vínculo e é o primeiro pedido, são 5 parcelas, ou R$ 10.333,25. Os valores e as regras são atualizados todo ano, então confirme a tabela vigente na hora do pedido.
4) Horas extras com reflexos
Aqui está o dinheiro que mais fica esquecido. A hora normal do João vale R$ 2.800 ÷ 220 = R$ 12,73. Com o adicional mínimo de 50% (art. 7º, XVI, da Constituição), a hora extra vale R$ 19,09. Vinte horas por mês dão R$ 381,82, e em 54 meses chegamos a R$ 20.618,18.
Mas as horas extras habituais repercutem em outras verbas (Súmula 172 e Súmula 376 do TST, entre outras). Veja os reflexos:
- Descanso semanal remunerado (DSR): R$ 3.436,36
- Férias com 1/3: R$ 2.672,73
- 13º salário: R$ 2.004,55
- FGTS de 8% sobre tudo isso: R$ 2.298,55
- Multa de 40% sobre esse FGTS: R$ 919,42
Total de horas extras com reflexos: R$ 31.949,78. Quer saber como provar essa jornada? Leia nosso artigo sobre hora extra obrigatória e o guia sobre banco de horas irregular.
5) Benefícios da convenção coletiva não pagos
Imagine que a convenção da categoria garantisse PLR de um salário (R$ 2.800,00) e cesta básica de R$ 200,00 mensais (R$ 2.400,00 em 12 meses), e que nada disso foi pago. Esses benefícios aparecem na lista de direitos que muita gente nunca cobra, porque nem lembra que existem.
A soma total do exemplo
- Verbas rescisórias: R$ 10.064,44
- FGTS (saldo estimado): R$ 12.726,93
- Multa de 40% do FGTS: R$ 5.090,77
- Seguro-desemprego (5 parcelas): R$ 10.333,25
- Horas extras com reflexos: R$ 31.949,78
- PLR da convenção: R$ 2.800,00
- Cesta básica: R$ 2.400,00
💰 Soma total: cerca de R$ 75.365,00
Repare: a rescisão “no papel” era de pouco mais de R$ 10 mil. Com o pacote completo, o direito do João passa de R$ 75 mil. O saque do FGTS e o seguro-desemprego são direitos de qualquer demitido sem justa causa. O que depende do processo são as horas extras, os benefícios de convenção e as demais verbas sonegadas. Em alguns casos ainda podem entrar multa do art. 477 da CLT (atraso na rescisão), indenização por dano moral e adicionais como insalubridade e periculosidade, que não estão neste total.
Como a Justiça chega ao valor final?
Na petição inicial, o advogado lista cada pedido e indica um valor estimado, e o juiz decide o que é devido. Depois da sentença, vem a fase de liquidação, quando os cálculos são conferidos e atualizados com correção monetária e juros. É por isso que o valor recebido no fim pode ser diferente da estimativa inicial, para mais ou para menos.
Outro ponto prático: quanto melhor documentado o caso, maior a chance de o juiz aceitar o pedido por inteiro. Um simples extrato de mensagens combinando horário de saída pode virar prova de jornada, e um holerite sem o adicional previsto na convenção mostra exatamente o que faltou. Quem organiza as provas desde cedo negocia acordos melhores e tem menos surpresas na sentença.
O que pode aumentar ou diminuir o valor
O resultado real varia bastante. Pesam a favor do trabalhador: provas de jornada (cartão de ponto, mensagens, escalas), testemunhas, holerites que mostram o que foi pago e a convenção coletiva da categoria. Pesam contra: a falta de provas, a prescrição de verbas mais antigas e a possibilidade de a empresa comprovar pagamentos que você não lembrava. Por isso, nenhum simulador substitui a análise do seu caso.
Também vale saber que o trabalhador de baixa renda pode ter a justiça gratuita, e que o tempo médio de tramitação está explicado em quanto tempo demora um processo trabalhista.
Qual o prazo para entrar com a ação?
Você tem 2 anos depois do fim do contrato para ajuizar a ação, e pode cobrar os últimos 5 anos de direitos (art. 7º, XXIX, da Constituição). Passou desse prazo, o direito de cobrar acaba, e o dinheiro fica com a empresa.
Mini-checklist: o que reunir antes de procurar um advogado
- Carteira de trabalho (digital) e contrato;
- Holerites, termo de rescisão e extrato do FGTS;
- Prints de WhatsApp, e-mails e registros de horário;
- A convenção coletiva da sua categoria;
- Nome de colegas que possam servir de testemunha.
Perguntas frequentes
Quanto tempo leva para receber?
Depende da região e da complexidade, mas acordos podem sair em poucos meses e sentenças levam mais tempo. Os recursos alongam o prazo.
Eu pago algo para entrar com a ação?
Quem comprova baixa renda tem direito à justiça gratuita. Em geral, o escritório só cobra se você ganhar, mas isso deve ser combinado com clareza por contrato.
O seguro-desemprego entra no processo?
Ele é pago pelo governo, não pela empresa, mas se a empresa não entregar as guias, ela pode ser condenada a indenizar o valor perdido.
Se eu perder o processo, tenho de pagar a empresa?
Depois da reforma trabalhista, existem honorários de sucumbência sobre os pedidos perdidos, mas o beneficiário da justiça gratuita só pode ser cobrado em situações específicas. Converse com um advogado antes de ajuizar.
Posso fazer acordo?
Pode, e muitos casos terminam assim. O ideal é saber quanto você teria direito antes de aceitar qualquer proposta.
Quem pediu demissão pode ganhar valores no processo?
Pode cobrar horas extras e outras verbas sonegadas. Só não tem direito à multa de 40% e ao seguro-desemprego, salvo se conseguir reconhecer a rescisão indireta.
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Comece pela nossa calculadora gratuita de rescisão trabalhista e veja uma estimativa das verbas básicas. Depois, vale a pena fazer uma análise completa do contrato para descobrir o que mais pode estar faltando.
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