“Você não acha que tem que emagrecer não? Você está muito gordo!” Foi com frases como essa, ditas na frente dos colegas, que um supervisor transformou a rotina de um trabalhador de Minas Gerais em humilhação constante. Nesta terça-feira (11), a notícia ganhou repercussão: a Justiça do Trabalho reconheceu o assédio moral por gordofobia, autorizou o trabalhador a encerrar o contrato com todos os direitos e manteve indenização de R$ 20 mil.
O caso, decidido pelo Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais (TRT-MG) e noticiado pelos jornais O Tempo e Tribuna de Minas, interessa a todo trabalhador que já foi alvo de piadas sobre o corpo, apelidos ou comentários humilhantes no serviço. Ele mostra que esse tipo de conduta tem nome, tem lei e tem consequência.

O que aconteceu no caso julgado pelo TRT-MG
Segundo as reportagens, o trabalhador atuava como agente de ação social em uma empresa pública mineira. Testemunhas confirmaram que o supervisor fazia comentários depreciativos sobre o peso dele diante de outros funcionários, dizendo que “não tinha uniforme novo para o corpo avantajado dele” e mencionando até o tratamento psicológico do empregado. Uma testemunha relatou ter presenciado humilhações pelo menos quatro vezes.
O processo apontou ainda um segundo problema: depois que o trabalhador reclamou de falhas no sistema de registro de ponto, ele deixou de ser convocado para eventos extras, o que a Justiça considerou retaliação.
A empresa se defendeu. Alegou que não havia prova de comportamento repetido, que uma perícia não identificou repercussões psicológicas ligadas ao trabalho e que os conflitos poderiam ter relação com supostos atos de insubordinação do funcionário. A Quarta Turma do TRT-MG, porém, seguindo o voto da desembargadora relatora, entendeu que os depoimentos confirmaram as humilhações, manteve a sentença da 5ª Vara do Trabalho de Contagem e negou os recursos. Segundo as reportagens, não cabe mais recurso e o processo está em fase de execução.
Rescisão indireta: o trabalhador “demite” a empresa
O ponto mais importante da decisão foi o reconhecimento da rescisão indireta, prevista no artigo 483 da CLT. Ela funciona como uma “justa causa ao contrário”: quando o empregador comete falta grave, como tratar o empregado com rigor excessivo ou ferir sua honra, o trabalhador pode pedir na Justiça o fim do contrato recebendo tudo o que receberia numa demissão sem justa causa:
- Aviso prévio indenizado;
- Férias vencidas e proporcionais com 1/3;
- 13º salário proporcional;
- Saque do FGTS com a multa de 40%;
- Guias do seguro-desemprego.
Ou seja: a vítima de assédio não precisa pedir demissão e abrir mão de tudo. Explicamos o passo a passo no nosso guia sobre rescisão indireta.
O que esse caso ensina sobre os seus direitos
A lição central é simples: comentário humilhante repetido não é “brincadeira”, é assédio moral, e a empresa responde por ele. Veja o que o caso mostra na prática:
- Gordofobia é levada a sério pela Justiça. Piadas e cobranças sobre o corpo, feitas em público, violam a dignidade e geram indenização;
- A empresa responde pelos atos do chefe. A decisão destacou que o empregador deve garantir ambiente de trabalho seguro e psicologicamente saudável, dever que a Constituição reforça no artigo 7º;
- Retaliação também é falta grave. Excluir o funcionário de escalas e oportunidades depois de uma reclamação legítima pesou contra a empresa;
- Testemunhas decidem processos. Foram os relatos dos colegas que confirmaram as humilhações;
- Denúncia interna documentada vira prova. As mensagens do trabalhador aos canais da empresa mostraram que ela sabia das “acusações graves” e precisava agir.
Sofro algo parecido: o que fazer
Se você vive situação semelhante, comece a se proteger hoje. Guarde este checklist:
- Anote cada episódio: data, hora, local, o que foi dito e quem presenciou;
- Salve prints de mensagens, áudios e e-mails ofensivos;
- Registre a denúncia nos canais internos (RH, ouvidoria) por escrito e guarde o protocolo;
- Converse com colegas que possam testemunhar;
- Procure orientação antes de pedir demissão: a rescisão indireta pode garantir todos os seus valores.
O prazo para agir é de até 2 anos após o fim do contrato, alcançando os últimos 5 anos. Veja também como provar o assédio moral e calcular a indenização e o que fazer se você foi humilhado no trabalho.
Perguntas frequentes
Comentário sobre meu peso uma única vez já é assédio?
Um episódio isolado pode gerar dano moral se for grave e público. O assédio moral, em regra, se caracteriza pela repetição.
Quanto vale uma indenização por gordofobia no trabalho?
Depende da gravidade, da repetição e do porte da empresa. No caso do TRT-MG foram R$ 20 mil, e há condenações maiores.
Preciso continuar trabalhando enquanto o processo corre?
Na rescisão indireta, é possível sair do emprego e discutir o motivo na Justiça. Busque orientação antes de tomar essa decisão.
E se o RH ignorar minha denúncia?
A omissão da empresa agrava a situação dela. Guarde o protocolo da denúncia: isso vira prova a seu favor.
Posso ser demitido por denunciar o chefe?
Se a demissão for retaliação, ela pode gerar indenização e, em alguns casos, ser revertida. Guarde as provas da denúncia.
Só quem tem “carteira assinada” pode processar?
Terceirizados e até prestadores podem acionar a Justiça, e a tomadora do serviço pode responder junto, conforme o caso.
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